Comecemos pela carinhosa alcunha que lhe conferiram: Bom Velhinho. Noel, encare a verdade. O senhor é um idoso. E um idoso explorado por milhões e milhões de pessoas. Se as agências internacionais veiculassem uma matéria sobre um homem de idade avançada que trabalha dia e noite, no frio, sem descanso e sem ganhar um tostão em troca, o mundo ficaria horrorizado com tamanha brutalidade. ONGs seriam criadas, passeatas seriam realizadas e até um show de rock beneficente seria organizado pelo Bono. Isso é trabalho escravo senil, companheiro.
Para piorar a situação, o dia mais estafante do seu ano de labuta é exatamente aquele que todas as outras pessoas estão aproveitando! Enquanto famílias se reúnem em volta de uma mesa farta, enchem a pança de peru e a cara de espumante, o senhor está saindo, à noite, para trabalhar. O zelador do meu prédio também faz isso, mas pelo menos ele ganha uma caixinha gorda dos condôminos e uma cesta de Natal com panetone, bolachas amanteigadas e torrone. E o senhor, companheiro, ganha o quê? Nada, eu presumo. Esse negócio de dar e não receber é um ultraje. Uma afronta!
Isso sem contar os riscos de sua profissão. Resfriado é o mínimo que você pode sofrer, andando naquele trenó aberto, tomando vento na cara por horas a fio. Sobre andar no telhado das casas, bem, basta um pedaço solto, ou um passo em falso, para ocorrer uma queda séria. Na sua idade, é um problema quebrar ossos, entende? Para consertar, precisa de pino, repouso e fisioterapia. E aquela parte de descer a chaminé então? O senhor tem uma figura roliça, pode ficar entalado de repente. Tem mais: o companheiro sabe o estrago que os pulmões sofrem ao respirar pó de carvão?
Olha que nem entramos ainda no mérito do stress. Pegar pedidos de todas as crianças, confeccionar os presentes e ainda entregá-los na hora certa? O senhor conhece a importância de seu trabalho, e sabe que se falhar uma única vez pode simplesmente destruir a infância de alguém. É muito peso para uma pessoa só, Noel. As taxas de enfarte decorrente de práticas estressantes estão alcançando níveis estratosféricos ultimamente. Por isso, hoje em dia empresas chegam a contratar massagistas para tirar a tensão dos ombros do funcionário. Há massagistas aí em sua fábrica de brinquedos, companheiro? Creio que não.
E reajuste salarial, nem em sonho, não é mesmo? Se nem salário em si existe... Nessa profissão que o senhor escolheu é preciso estar sempre se aperfeiçoando, lendo os jornais, assistindo canais de TV por assinatura. É preciso investir tempo e dinheiro para ser um bom trabalhador. Sim, porque a cada ano a dificuldade aumenta. Se no século passado as crianças pediam caminhões de madeira e ursos de pelúcia, agora elas querem XBox 360, iPod e celulares com câmera digital acoplada. Seria um desastre se o companheiro não estivesse por dentro das últimas novidades. E esse seu esforço constante precisa ser reconhecido!
O senhor precisa exigir salário, plano de saúde, vale-transporte e ticket refeição. Aposto que o senhor dá tudo isso para seus funcionários, pois tem fama de ser um empregador honesto e decente. Olha aí, eis um outro fato a seu favor: geração de empregos. Milhares e milhares deles. E para pessoas menos favorecidas. Se não fosse pelo senhor, aqueles homenzinhos e mulherzinhas teriam muita dificuldade em conseguir uma vida profissional. Neste mundo, eles são considerados deficientes. Um absurdo. O senhor poderia ter um belo desconto no imposto por ser tão politicamente correto! Além disso, companheiro, o senhor colabora com o setor agropecuário, criando renas. E preservando a fauna e a flora local.
Como se não bastasse ter sua pessoa física explorada, sua imagem também o é. Se o senhor lucrasse cada vez que um desenho, ou boneco, ou enfeite do Papai Noel fosse usado sem a devida permissão (por escrito, em três vias, assinada em cartório, xerocada e com cinco testemunhas, no mínimo) imagine o montante de dinheiro no final de cada temporada natalina. Dinheiro mais que merecido, diga-se de passagem. Afinal, por que o único e verdadeiro Noel não pode ganhar uns trocados se qualquer sósia mal-feito é pago para ficar sentando em um trono no shopping-center? Aliás, o companheiro precisa estar atento com os genéricos. Eles devem passar por um teste de qualidade mais rigoroso, um treinamento mais qualificado.
Sei que todas as reivindicações, apesar de serem totalmente cabíveis, o deixam confuso. É assim mesmo. Mas o senhor não me engana. Com essa roupa vermelho comunista essa barba Leninista e esse senso de distribuição justa de Karl Marx, só pode haver sangue de revolucionário correndo em suas veias. Por isso, companheiro, à luta! Se precisar, faça greve , reivindique. Quero ver, então, alguém dizendo que Papai Noel não existe depois de atestar a falta de presentes debaixo da árvore. Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás como já dizia nosso amigo Che.
Espero o senhor nos primeiros minutos do sabado para a gente tomar uma vodka conversar mais e meter o pau nessa burguesia capitalista que nos suga até o tutano...Proletários do mundo, uni-vos.
PS: Entãooooooo é natal...entãooooo é natal (tá só sei isso mesmo da musica) mas a ideia é essa ai galerô.
Que o natal de todos seja repleto de tudo que realmente faz sentido na vida e não perca o verdadeiro significado seja ele qual for. E um ultra, maxi, mega , power ano novo pra todo mundo.
Que 2011 entre com o pé direito para todos nós.
Musica da vez: Hold Me Up - Live (Tá a musica não tem nada a ver com natal mas a dois dias não consigo mais ouvir outra coisa e precisava dividir isso com vcs ) =)










